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Joalheria Afetiva - Antiguidade

  • Foto do escritor: Roberta Barbosa
    Roberta Barbosa
  • 15 de fev.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 21 de fev.

Oi! Decidi criar esse espaço para compartilhar curiosidades e pesquisas sobre o meu mundo - o mundo da joalheria e da alta joalheria. Este é o primeiro texto de uma série em que vou falar sobre joalheria afetiva. Como as emoções afetam o adorno? Como nos exprimimos através de joias? Como essa maneira de se expressar evoluiu? Aneis de noivado sempre foram assim tão românticos?


A ideia nessa série é refletir sobre essa evolução: de onde viemos em termos de joalheria afetiva (ou afeto físico, como eu também gosto de pensar) e como usamos essa arte para falar sobre o que nos é particular. Vou começar do começo: da Antiguidade aos nossos dias, e espero poder observar como esses objetos, aparentemente pequenos, condensam transformações profundas: mudam os materiais, mudam as técnicas, mudam os estilos artísticos, mas algo fica: o vínculo. A cada semana, vou explorar um período histórico diferente, esperando que no final possamos ter uma ideia mais clara sobre afeto, acordos e joalheria. Vamos?


Antiguidade

Na Antiguidade, a joia não é só decorativa. Ela participa de uma lógica simbólica mais ampla: protege, marca pertencimento, sinaliza poder e, muitas vezes, estabelece uma relação direta com o corpo. Anéis, amuletos e talismãs circulam como objetos de identidade e de ordem social, mas também como instrumentos vinculados ao invisível — à mitologia, à religião, à ideia de proteção e de continuidade.


Amuleto Romano em bronze, data não identificada, Museu do Louvre
Amuleto Romano em bronze, data não identificada, Museu do Louvre

Um bom exemplo disso está no livro Arte Não Europeia (vou deixar as referências no final), em um capítulo sobre amuletos de figa como proteção contra o mau-olhado na Antiguidade e Idade Média. A imagem da figa — elemento que protege contra os poderes do olhar — remete a uma tradição antiga que, em Roma, aparece nos fascinum: amuletos usados para neutralizar a inveja e o “olhar malévolo”. Se o olhar é entendido como essa força poderosa, capaz de atravessar o espaço e atingir o corpo do outro, o amuleto funciona como um dispositivo que atrai esse olhar e, ao mesmo tempo, o desarma. A própria palavra “fascinação”, em tradições europeias antigas nomeia esse encantamento produzido pelos olhos: estar fascinado era sofrer a ação do olhar do outro.

Nas relações (já que estamos falando de afeto), o vínculo que um anel pode representar não corresponde necessariamente a um “noivado romântico” como entendemos hoje. O compromisso, muitas vezes, se dá mais no campo político e contratual: alianças familiares, pactos, transmissões de poder e pertencimento. Ainda assim, o sentimento pode não estar ausente — ele apenas não ocupa a posição central que virá mais tarde.

Anel romano (período imperial) em ouro e esmalte. O detalhe no centro é o Nó de Héracles, um símbolo que remonta à Antiguidade greco-romana e representa a proteção e o enlace afetivo entre duas pessoas.
Anel romano (período imperial) em ouro e esmalte. O detalhe no centro é o Nó de Héracles, um símbolo que remonta à Antiguidade greco-romana e representa a proteção e o enlace afetivo entre duas pessoas.

Símbolo do Ouroboros : serpente que morde a própria cauda, símbolo de unidade e perpetuidade. Museu do Louvre
Símbolo do Ouroboros : serpente que morde a própria cauda, símbolo de unidade e perpetuidade. Museu do Louvre

O símbolo de dar um anel, em particular, também concentrava algo raro: por sua forma circular, ele sugeria aquilo que não tem começo nem fim, isso é, uma imagem de permanência, segurança. É nesse horizonte que podemos situar o Ouroboros — a serpente que morde a própria cauda — um desenho antigo associado à eternidade, ao retorno e à renovação cíclica. Suas primeiras aparições conhecidas remontam ao Egito Antigo, e com o tempo foi ampliando seu campo de significados: unidade do todo, repetição do tempo, transformação contínua.




Outro ponto decisivo é que a Antiguidade inaugura uma ideia que atravessará os séculos: joias podem funcionar como linguagem. Mesmo quando a intenção é política, o objeto fala — e fala com códigos. Materiais, motivos e formas não são neutros: eles comunicam valores, crenças e pertencimentos. É por isso que, quando pensamos em joias sentimentais, vale lembrar que o “sentimental” não nasce como um gênero isolado; ele se constrói pouco a pouco, a partir de um vocabulário simbólico já existente.


Anel Romano do século IV ou V, pertencente a um casal Aristophanes e Vigilantia
Anel Romano do século IV ou V, pertencente a um casal Aristophanes e Vigilantia

Por fim, a Antiguidade oferece o que talvez seja o fundamento dessa longa trajetória: a noção de que um vínculo precisa, em algum momento, de um suporte material para existir no mundo social — algo que se mostre, que se carregue, que se reconheça. O anel, desde cedo, ocupa esse lugar ambíguo entre íntimo e público: ele é pequeno, mas afirma; é discreto, mas declara.








A história do anel é, desde cedo, uma história de camadas: o afeto emerge dentro de sistemas sociais maiores, e aprende a se inscrever neles. No próximo texto, veremos como a Idade Média transforma essa ambiguidade em instituição — e como o compromisso se torna, progressivamente, um estado visível.







Referências:

Livro : Arte Não Europeia - conexões hitoriográficas a partir do Brasil - organizado por Claudia Mattos Avolese e Patricia D. Meneses

Livro : Rings for the Finger - George Frederick Kunz

Livro : Jewels That Make History - Stellene Volandes

Livro : Stoned - Aja Raden

Livro : Jewels - Victoria Finlay

Amuleto Romano : Site do Museu do Louvre

Anel Nó de Héracles : Site do Museu sobre a peça

Ouroboros : Site do Museu



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